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Data de publicação: 15/03/2010

A pílula anticoncepcional completa meio século nas prateleiras do mundo

A avó garantiu que o método era seguro e infalível. Depois das relações sexuais, bastava correr para fazer uma lavagem com água morna, sal e vinagre. Só que não deu tão certo assim. Um dia, com preguiça de seguir o conselho, Marli Nunes da Silva engravidou. A partir daí, aderiu a um remédio que acabava de chegar às farmácias brasileiras: o anticoncepcional. Em maio deste ano, completa-se meio século da comercialização da pílula, lançada primeiramente nos Estados Unidos.

Era 1962 e, mesmo casada, Marli, hoje com 68 anos, sofreu preconceito. “Minha avó dizia que fazia mal, e eu respondia: ‘Pelo amor de Deus, se não usar, daqui a pouco estou cheia de filhos’”, conta. “As pessoas achavam que as mulheres que tomavam já ‘estavam na vida’. Uma vez, uma vizinha falou para minha mãe: ‘Mas sua filha, tão nova, já usando anticoncepcional...’”, recorda Marli, às gargalhadas.

Defensora incondicional do remédio, foi ela quem levou as duas filhas para o ginecologista, ainda na década de 1970. As meninas, no início da adolescência, sofriam com fortes cólicas e fluxo irregular. “Meu marido implicou. Ele é dos antigos e se preocupava com o que iam dizer sobre as filhas dele. Expliquei que a gente já estava em outra época”, diz. Marluci Nunes da Silva Freire, 49 anos, a filha do meio, lembra-se que na escola muitas meninas tinham vergonha de dizer que tomavam pílula. “Ainda causava espanto”, recorda.

Mãe de um casal de 21 e 19 anos, a administradora e funcionária pública repetiu a atitude da mãe e, logo que a caçula, Bruna, começou a sentir cólicas muito fortes — chegou a desmaiar duas vezes —, ela marcou a consulta com o ginecologista. A estudante de direito conseguiu combater o desconforto com o remédio. “Hoje, ninguém mais tem preconceito”, diz.

De três gerações diferentes, Marli, Marluci e Bruna se beneficiaram de um dos maiores propulsores da revolução feminina. Utilizada por 21% das brasileiras entre 15 e 49 anos (dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006), a pílula ajudou a encolher o número das famílias e, consequentemente, liberar a mulher para desbravar o mercado de trabalho. Em 1970, a taxa de fecundidade no país era de 5,8 filhos por casal, e o percentual da população economicamente ativa feminina era de somente 28,8%. Em 2007, a fecundidade despencou para 1,95 filho, enquanto a participação da mulher no mercado de trabalho pulou para 43,6%.

Se, na época de Marli, a pílula era uma bomba de hormônios sintéticos, que provocavam inúmeros efeitos colaterais, incluindo mortes, o método contraceptivo mais usado no Brasil é, atualmente, um aliado no combate a doenças graves, de acordo com médicos. Um estudo publicado no periódico especializado Expert Opinion, que avaliou 100 trabalhos científicos, mostrou que o uso prolongado do anticoncepcional oral diminui o risco de tumores de ovário, do endométrio e colorretal.

Mitos

Mesmo assim, ainda há quem evite ou tome indevidamente o remédio, com medo dos efeitos adversos. “É comum as pessoas chegarem ao consultório e perguntarem se não precisam fazer uma ‘pausa para o organismo descansar’. Isso não existe, é um grande mito. As pílulas modernas têm uma quantidade muito menor de hormônio que as antigas. É como comparar um Fusca a uma Mercedes”, esclarece a ginecologista Valéria Cristina Gonçalves, da Amil, em Brasília. Ela lembra que nem todas as mulheres podem utilizar o anticoncepcional combinado (veja quadro), e que incômodos, como náuseas e enxaquecas, podem ocorrer. Afirma, porém, que, com a variedade de pílulas no mercado, o médico é capaz de encontrar uma que se adeque bem ao organismo da paciente.

“Na década de 1960, a dose hormonal chegava a ser 10 vezes maior. Hoje, é bem mais baixa e continua segura em relação à contracepção”, concorda Afonso Nazário, chefe do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo. Para ele, porém, ainda há o que ser aperfeiçoado. “Seria um grande avanço se houvesse um componente que protegesse contra o câncer de mama”, exemplifica.

Marcelino Poli, vice-presidente da Comissão de Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, conta que as pesquisas não param e que a maior novidade na área é uma droga composta por um tipo de estrogênio muito semelhante ao natural. “É uma vantagem teórica, mas ainda é preciso verificar a eficácia”, diz. No Brasil, a primeira pílula baseada em um hormônio natural, o estradiol, já foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, de acordo com o diretor de saúde feminina do Bayer Schering Pharma no Brasil, Fernando Caron, deve entrar no mercado no segundo semestre deste ano. “Uma das vantagens é que a nova pílula diminui a retenção de líquido”, conta.

Palavra de especialista

Crendices sem fundamento

A pílula é o método mais utilizado no Brasil, embora seja difícil dizer se é o melhor, já que isso depende de cada pessoa. Mas há muita história envolvendo os efeitos cola-terais. A verdade é que a maior parte das mu-lheres toma e se dá muito bem. São poucas as que sentem algum tipo de indisposição. Uma das reclamações é a retenção de líquidos: porém, uma retenção pequena e que desaparece logo. Por causa desses mitos, há uma subutilização da pílula, especialmente entre as adolescentes, que são mal informadas e pensam que a pílula dá estrias e engorda. Essas crendices não têm fundamento.

Fonte: Correio Braziliense, 15/03/2010

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